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Belo Horizonte, Minas Gerais

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018


Os rios correm para o mar

Cesar Vanucci

"A boa política global não requer um mundo uninacional. Tudo o que necessita é de cooperação informal para um objetivo comum de expansão"
(Paul Samuelson, Nobel de Economia)

O culto aos valores da nacionalidade está para o sentimento universal como as águas do rio estão para as águas do mar. Uma questão de convergência. Chega-se assim ao que é chamado de sentimento de mundo. As presumíveis contradições se desfazem diante do reconhecimento de que o sentimento nacional e o sentimento de mundo não são realidades divergentes e estanques, mas componentes indispensáveis de uma mesma e vital realidade.

Não se chega ao sentimento de mundo com a adoção de estereótipos culturais, de clones culturais. As pessoas, nos diferentes lugares, não vivenciam esse sentimento de forma rigorosamente idêntica. A universalização cultural passa forçosamente pelas diferenciações culturais básicas, intrínsecas ao espírito nacional dominante nas diferentes regiões. Essas diferenciações dão colorido, identidade e substância ao conjunto. Asseguram sentido ecumênico às manifestações da alma humana. Nas diversidades de procedimentos, ou na forma peculiar de cada agrupamento humano exprimir suas vivências, projeta-se a imensurável riqueza do humanismo universal.

Há quem pense, laborando num tremendo dum equívoco, que exprimir apreço pelos valores universais significa desdenhar os valores nacionais. E vice-versa. Nada disso. A cultura universal, visão planetária do mundo, pessoas e coisas, é o somatório do que de melhor existe nas culturas regionais. A multiplicidade de idiomas e de costumes não agride a consciência universal. Ao contrário, a fortalece.

Na liturgia religiosa temos amostra significativa de como pode a unidade de culto universal, sem desfiguração de sua substância e conteúdo, absorver valores típicos das culturas religiosas regionais. A liturgia é uma só. Mas incorpora, aqui e ali, nas manifestações exteriores, símbolos sonoros e visuais tradicionais e peculiares a cada região.

Falamos dessas coisas para explicar que a defesa intransigente dos valores culturais da nacionalidade é expressão humanística vigorosa. Nada tem a ver com xenofobia, que significa atraso espiritual. Exemplificando: reagir à invasão de vocábulos estrangeiros no papo coloquial, invasão essa nascida reconhecidamente de modismos que bebem inspirações na babaquice e pernosticismo, é uma saudável postura nacionalista. Algo muito diferente, visceralmente antagônico, daqueles procedimentos próprios da fanatice tribal, chamemo-la assim, que domina, para apontar outro exemplo, certas regiões do mundo onde a sucessão de selvagerias, praticadas em nome de “valores” étnicos, envergonha o genuíno nacionalismo e avilta a condição humana.

O sentimento de mundo não é alvejado quando o espírito nacional convoca as pessoas a refletirem sobre as propostas de globalização econômica. Essas propostas vêm sendo embutidas em pseudo fórmulas liberais. Apregoadas pelos interessados de sempre na manipulação dos cordéis econômicos, nada mais representam que receitas sutis, conquanto perversas, de sujeição das economias regionais vulneráveis às economias dotadas de maior poder de fogo. Ou seja, uma versão renovada e cruel de milenares hegemonias política e econômica.

Na base do “faça o que eu digo e não o que eu faço”, os países dominadores traçam para os demais os rumos da abertura escancarada dos portos, da retirada sem compensações e sem reciprocidades do protecionismo alfandegário, por aí. Há quem se disponha, desprevenidamente, a embarcar no “titanic” da sedutora proposta marqueteira de globalização. Podem se surpreender, em meio à viagem, em mar alto, sem boias e sem escaleres. Estarão assistindo, então, impotentes, ao desmantelamento de suas estruturas produtivas, e colhendo os frutos amargos dessa situação: o desemprego, a concentração ainda maior da riqueza e o empobrecimento coletivo. O tema rende reflexões a perder de vista.


E por falar em 
“feedback” e “brunch”

Cesar Vanucci

“É preciso reaprender a lição: Brasil se escreve com “S”.”
(Antônio Luiz da Costa, professor).

Os indulgentes leitores destas maltraçadas sempre receberam com simpatia, compreensão e reconfortante apoio, as manifestações de nosso inconformismo face à despudorada ofensiva, patrocinada pela babaquice reinante, dos indigestos vocábulos estrangeiros que infestam a cena cotidiana brasileira. Boa parte dos casos aportados na série de comentários sobre a epidemia de estrangeirice abobalhada que nos assola nascem de contribuição por eles trazida. É o caso dos relatos vindos a seguir.
              
Naquela cidade interiorana, festejou-se com invulgar entusiasmo a contratação, pelo clube local, de experiente técnico de futebol, cujo currículo anotava passagens por agremiações no exterior. O clima de euforia na recepção ao treineiro foi demais: rojões, faixas, banda de música, comes e bebes. Mais bebes do que comes. Na hora dos discursos, a badalação, por essa óbvia razão, ficou fora de controle. O recém-chegado foi comparado ao padroeiro do lugar. O presidente, o cronista, até o pároco, revirando pelo avesso a paixão clubística, crivaram o técnico de todas as louvações disponíveis no estoque.

Abra-se parêntese (para lembrar que toda essa empolgação não impediu, poucos meses depois, acumulados três insucessos sucessivos do clube nos gramados, no cumprimento da inapelável sina da categoria, fosse o mesmo convidado, sem cerimônia nenhuma, a tirar o time). Voltemos à recepção. Embargado pela forte emoção, como registrou o técnico deitou falação caprichada. Tascou frases em portunhol, deixou cair outras num inglês “moroless”, escandindo as sílabas a cada vez que pronunciava coisas do tipo ‘full time’, “feeling”, “inside”, “feedback”. Esta última expressão, por sinal, foi por ele utilizada dezenove vezes. Na ovação que se seguiu, pipocou na plateia o comentário de um personagem especial, coronelão respeitado, conselheiro e benemérito do clube: “- Tou pondo fé nesse caboclo. É douto. Diz uns troços bacana. Só discordo num ponto. Lançar o Fio de beque não é uma boa ainda. Fio é menino que promete, mas ainda num tem a tarimba recomendada ...”.

Outra historieta. O deputado mandou convite ao cabo eleitoral do interior. Um coronel detentor de votos decisivos em território conservado, anos a fio, sob férreo comando. Um homem de impulsos fortes, amizades e inimizades definitivas. O convite, para uma série de eventos festivos na capital, tocou fundo a emoção do convidado. Junto com o impresso - “cheio de nove horas”, na classificação do coronel -, chegou uma carta de próprio punho do deputado. “Isso num é coisa para deixar de comparecer. Só se for pra mandar no lugar atestado de óbito”, comentou o ilustre convidado. Uma coisa, no entanto, deixou o coronel intrigado, espalhando caraminholas pela sua cuca. “O convite tá bem ajeitado. O que não tá dando pra entender direito é o tal de “brunch”, pensou, sem dizer nada a ninguém. Jamais lera ou ouvira antes a expressão. Mas não se deu por achado em sua cortante curiosidade. Quem comanda gente - o coronel é dos que acreditam piamente nisso - tem que aprender a só fazer perguntas medidas e pesadas e a dar respostas certas para os outros. Ficou aguardando com paciência a hora de descobrir o que era esse tal negócio de “brunch”. Danou a acumular besteira na cachola. Em telefonema ao deputado, rodeou o toco o quanto pôde, com colocações de somenos, até poder sapecar a pergunta: “- E o tal brunche, tá nos conformes?”. O interlocutor, sem morar, obviamente, na aflição do coronel, garantiu: “- Está tudo muito bem estruturado. Vai ser um “brunch” e tanto!”. O coronel, não suportando o sufoco, retomou: “- Me explica aí, compadre. Vosmicê arranjou o tanto suficiente de muié-dama para o brunche, ou carece d’eu ter que arranjá umas raparigas daqui? ...”.

Ora, veja, pois!...