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Belo Horizonte, Minas Gerais

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

O Papa e a Amazônia

Cesar Vanucci

“...As propostas de internacionalização da Amazônia só servem
aos interesses econômicos das corporações internacionais.” (Papa Francisco)

A constância com que o carismático Papa Francisco é aqui evocado decorre da circunstância de que, em seu refulgente pontificado, além de mentor espiritual acatado por multidões, ele é aclamado como o mais qualificado estadista da história contemporânea. Nenhum tema de alta relevância, alusivo às angustias humanas, é desconsiderado em suas argutas percepções da vida.

Recente manifestação desse líder religioso vindo dos confins do mundo, como faz questão de dizer, abordando com firmeza e lucidez as sempre candentes questões da Amazônia, deixa novamente explicitado o seu singular e propositivo estilo de liderança. A palavra está com Francisco: “Mencionemos, por exemplo, os pulmões do planeta repletos de biodiversidade, que são a Amazônia e a bacia fluvial do Congo, ou os grandes lençóis freáticos e os glaciares. A importância desses lugares para o conjunto do Planeta e para o futuro da humanidade não se pode ignorar. Todavia, ao falar sobre estes lugares, impõe-se um delicado equilíbrio, porque não é possível ignorar também os enormes interesses econômicos estrangeiros que a pretexto de cuidar deles, podem atentar contra as soberanias nacionais. Com efeito, as propostas de internacionalização da Amazônia só servem aos interesses econômicos das corporações internacionais.”

Análise soberba. Tem-se aí esplendidamente configurado o enorme tamanho do problema suscitado pela gula insaciável dos “donos do mundo”. O estadista Francisco, do alto de sua incontestável autoridade moral, registra sua preocupação diante das copiosas evidências de que a Amazônia, afortunado pedaço de chão bem brasileiro, vive sob a constante e despudorada mira da cobiça internacional.

Quem se entrega ao trabalho de coletar informações acerca do tema sabe perfeitamente bem que, tanto na Europa como nos Estados Unidos da América, pipocam volta e meia frenéticas ações indicativas de trabalhos articulados voltados flagrantemente para o insano objetivo de fragilizar, de modo a sensibilizar a opinião pública internacional, o direito sagrado e soberano da Nação brasileira sobre o vastíssimo e riquíssimo território, superior em extensão territorial à Europa inteira, Rússia excluída. São ações desencadeadas por inimigos a cada momento mais desenvoltos em suas solertes manobras.

Essa inapelável denúncia do Papa Francisco foi feita por ocasião do lançamento de uma luminosa carta encíclica, a “Laudato si”, a monumental aula de Direito e Educação Ambiental, onde se fala dos cuidados que a sociedade humana carece tomar com objetivo de preservar a “Casa Comum”. No documento, o Santo Padre faz um apelo pela Natureza para que o mundo pare de dar as costas à Mãe Terra. Pede pela preservação da Amazônia, reclama atenções para com o meio ambiente na exploração dos recursos naturais. Critica o consumismo e o desenvolvimento irresponsável, formulando um apelo a mudanças e à unificação global das ações destinadas a combaterem a degradação ambiental e as alterações climáticas. Convida as pessoas a ouvirem os gemidos dos “abandonados do mundo”, exortando todos e cada um – indivíduos, famílias, coletividades locais, nações e comunidade internacional – ao que denomina de “uma conversão ecológica”, isto é, uma “alteração de rumo”, assumindo a beleza e a responsabilidade de um compromisso para o “cuidado da casa comum”.

lá fora, com o pérfido objetivo de se apoderarem das riquezas da nossa Amazônia.”

O General e a Amazônia

Cesar Vanucci

“A cobiça internacional é uma realidade.”
(General Luiz Gonzaga Schroeder Lessa)

Algum tempo atrás, por mais de duas horas, plateia estimada em 2 mil pessoas, composta na quase totalidade por associados do Lions Clube em Minas Gerais, acompanhou eletrizada – este, o termo exato - magistral exposição sobre a Amazônia. O general Luiz Gonzaga Schroeder Lessa, ex-comandante militar da Amazônia, brindou os qualificados ouvintes, numa convenção acontecida em Poços de Caldas, com revelações de substancioso conteúdo geopolítico-econômico e cívico relacionadas com a fascinante temática. A mensagem transmitida, com toque humanístico e impregnada de sentimento nacional, chamou todo mundo a uma reflexão aprofundada sobre aquilo que o expositor define como questão prioritária na realidade brasileira. Algo que tem tudo a ver com o futuro de nossos filhos e netos. Com a soberania nacional.

A Amazônia legal – conforme explicou – estende-se por nove Estados. Representa 56% do território brasileiro. Sua população é estimada em mais de 20 milhões, para uma população nacional superior a 200 milhões. O território é de riquezas sem par. Por isso tornou-se alvo permanente da gula estrangeira. Exemplos abundantes de como essas ameaças se expressam foram alinhadas. Uma delas: declaração do então diretor geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy. O referido cidadão, de nacionalidade francesa, andou defendendo, arrogantemente, que a Amazônia fosse transformada “em bem público mundial, com gestão coletiva”. Seu desatino verbal fez coro com manifestações de teor parecido, produzidas por outras figuras de presença realçante na cena internacional.

O general asseverou que a cobiça é uma realidade palpável. Sob pretextos de estarem trabalhando em favor da necessária preservação ambiental da área e, ainda, em prol das populações indígenas, compromisso histórico impostergável da sociedade brasileira para com os descendentes dos primitivos habitantes do país, agentes estrangeiros julgam-se autorizados a promover desabridas interferências nas políticas brasileiras da Amazônia. Elementos perniciosos infiltram-se em muitas das milhares de ongs que operam naquela parte do mapa brasileiro. Essa ação danosa coloca sob mira as incomensuráveis riquezas do solo e do subsolo. Riquezas como ouro, nióbio, petróleo, gás, outros minerais estratégicos, que nenhum outro pedaço de chão do planeta tem pra oferecer com tamanha prodigalidade. Ali, igualmente, se concentra o maior reservatório de água doce (20%) do globo. E o que não dizer da biodiversidade da fauna e flora incomparáveis?

O esplêndido pronunciamento deixou claro que a integração social e econômica da região carece ser lastreada numa política inteligente de ocupação de terras, que leve em conta, sim, os aspectos ecológicos e a salvaguarda dos direitos das etnias indígenas. Mas, nas concessões de terras aos índios, releva registrar alguns pontos essenciais: as extensões exageradas das áreas cedidas; a preservação, para que sejam explorados em proveito da nação, dos locais que abriguem as colossais reservas minerais; demarcações que guardem natural distanciamento das zonas fronteiriças, por razões mais que óbvias.

Uma revelação do ilustre militar que deixou muitos tomados de surpresa foi a de que, ao contrário do que se supõe comumente, nenhum metro sequer da parte da floresta correspondente ao Amazonas, maior Estado da região norte, tinha sido alvo, até aquele momento, de qualquer ato devastatório. Outra informação significativa teve como foco a ação construtiva das Forças Armadas naquele espaço dadivoso pertencente ao Brasil. O Exército implantou nas regiões de fronteira dezenas de unidades providas de pistas de pouso e serviços básicos essenciais. Os militares e familiares que as habitam representam a linha mais avançada da presença brasileira em nossos limites geográficos mais longínquos. Deploravelmente, porém, dependências reservadas nas referidas unidades a acolher outros serviços governamentais, jamais, em tempo algum, foram ocupadas.

A palavra do general Lessa, repito, deixou sinal vigoroso no espírito dos que o ouviram. Ficou claramente positivado que a Amazônia não é apenas uma questão de governo, de política pública. Mais do que isso, é questão que clama por uma conscientização plena de toda a sociedade. Brota aí, inevitavelmente, uma interrogação: qual o motivo desse silêncio de tumba etrusca que, na grande mídia brasileira, recobre as palpitantes questões levantadas em torno daquela área, tão fundamentais aos projetos de construção de nosso futuro?

José Alencar 
e as duas Amazônias

Cesar Vanucci

“Na Amazônia, tudo é espetacular: a floresta, 
a biodiversidade e as riquezas do subsolo.” 
(Heráclides Leite Ferreira, educador)

A Amazônia que nos incumbe proteger, com toda força de nosso ardor cívico, são duas. Quem afirmou isso, sob aplausos, em pronunciamento anos atrás no Sindicato dos Jornalistas MG, foi José Alencar, aquele vice-presidente de inteligência aguda, arrojo empreendedor e irretocável comportamento ético em sintonia com o genuíno sentimento nacional, dons tão valiosos nesta hora desoladora em matéria de lideranças e ideias.

Repetindo: A Amazônia então são duas. A primeira delas de um verde esmeraldino ofuscante. A outra de um azul sempiterno. A verde corresponde a mais da metade de nosso território. A azul, avançando oceano adentro, estende-se por duzentas milhas marítimas além das costas litorâneas. Costas essas, fale-se de passagem, onde se alojam, pra embevecimento dos turistas, as mais belas paisagens praieiras do mundo.

Tanto uma quanto outra – como lembrado naquela ocasião - se fazem depositárias, em dadivosos projetos da Natureza, de riquezas fabulosas. Dá mesmo pra garantir, sem receio de resvalar em exagero: de riquezas incomparáveis. A verde é a Amazônia da floresta infinita. A maior deste conturbado planeta. A Amazônia do rio de maior extensão e maior volume d'água. Da biodiversidade que assombra. Das riquezas minerais inexauríveis. Azul é a Amazônia oceânica, de imensuráveis riquezas. Riquezas brotadas do “mar de medusas que ninguém semeia, criadas com mistério e com areia, perfeitas de beleza e de sentido, sobre um casto jardim adormecido”, dos líricos versos de Miguel Torga. Nesta porção de mar específica as reservas petrolíferas são colossais. Vem daí a condição privilegiada que o país ostenta no rol das potências energéticas.

Como resistir à tentação de encaixar, aqui, à guisa de parêntese, um registro histórico puxado das ladeiras da memória? Décadas atrás, o Brasil não somente não explorava petróleo, na terra ou no mar, como também não “possuía” petróleo, nem na terra, nem no mar. Pelo menos era o que, confiados na suprema ingenuidade das ruas, ousavam alardear por aí, em tom irretorquível, certos dirigentes políticos de proa. Um pessoal que se aprestava, docilmente, a render vassalagem a poderosos grupos estrangeiros. Encastelado em postos relevantes, fazia uso, costumeiramente, dos aparelhos de repressão policial para conter e desestimular vozes contestatórias. Técnicos estrangeiros de currículo reluzente, vinculados a manjadíssimos cartéis, punham-se de plantão para fornecer, a esses cidadãos “acima de qualquer suspeita”, solícita assessoria. Aviavam “pareceres” para uma opinião pública desinformada, atestando a certeza “científica” da inexistência, por aqui, do mais leve indício, de uma nesgazinha promissora que fosse, do chamado “ouro negro”. O nunca assaz reverenciado Monteiro Lobato apelidava esse “ouro negro” de “sangue da terra”, “alma da indústria”. “Tê-lo – assegurava o notável escritor – é ter o sésamo abridor de todas as portas. Não tê-lo é ser escravo.” Por emitir conceitos que tais, contrariando doutos figurões, o autor de “Urupês” foi convidado, um sem número de vezes, a ver o sol nascer quadrado, como era de costume dizer-se em tempos de antanho. Homem prevenido, deixava arrumada, toda noite, uma trouxa com pertences, incluindo pijama, chinelo, escova de dentes e demais utensílios de higiene pessoal. Punha-se no desagradável aguardo de convocação para desfrutar, por algum tempo, da hospitalidade do cárcere.

Parêntese desfeito, retornemos às Amazônias verde e azul. Ambas nossas, brasileiras. Que nem o samba, o carnaval, o futebol, as estátuas de Mestre Aleijadinho. Pertencem-nos e a mais ninguém. Lá fora, há quem, paranoicamente, não pense assim. Livros escolares mostram a Amazônia verde como protetorado internacional. O Capitão Marvel é chamado a empregar seus formidáveis poderes, nos sugestivos traços dos quadrinhos, mode que combater “pilantras brasileiros” que só querem saber da Amazônia pra devastar floresta e traficar droga... Tribunas e jornais trombeteiam pronunciamentos bombásticos reveladores da frenética cobiça assestada sobre a região.

A Amazônia azul é também alvo de ameaças. As descobertas de imensas reservas de óleo no fundo submarino suscitam grande alvoroço, despertam apetites insaciáveis. As 200 milhas marítimas do prolongamento territorial brasileiro continuam sendo  questionadas. Nos Estados Unidos, quando as potencialidades do pre-sal vieram à tona, chegou-se a aventar a possibilidade da criação de uma frota naval bem equipada para operar em águas próximas aos países sul-americanos, com o “louvável propósito” de colocá-los a salvo de eventuais perigos externos.  Me engana, que eu gosto...


Isso aí: os indícios de olho gordo” são abundantes. Fácil deduzir que crescem no momento em que o Brasil começa a extrair mais petróleo do mar do que dos poços terrestres. Salta aos olhos a necessidade de uma política de defesa dos interesses nacionais mais vigorosa, atenta a tudo quanto rola nesses mares encapelados das ambições humanas desenfreadas.